{"id":124,"date":"2019-09-28T02:15:16","date_gmt":"2019-09-28T05:15:16","guid":{"rendered":"http:\/\/portallulamoura.art.br\/?p=124"},"modified":"2019-09-28T19:08:30","modified_gmt":"2019-09-28T22:08:30","slug":"cosme-e-damiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portallulamoura.art.br\/?p=124","title":{"rendered":"Cosme e Dami\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-100 alignleft\" src=\"http:\/\/portallulamoura.art.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/lula1.gif\" alt=\"\" width=\"193\" height=\"143\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dois morcegos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil. Basta um pouco de imagina\u00e7\u00e3o para entender&#8230;<br \/>\nCoisa boa da vida, essa tal de natureza, n\u00e9?&#8230;<br \/>\nImaginem s\u00f3, uma fazendona bonita de grande&#8230; L\u00e1 em Minas Gerais&#8230;<\/p>\n<p>Era um fim de tarde, do dia 27 de setembro&#8230;<br \/>\nFoi isso que me chamou mais a aten\u00e7\u00e3o: a coincid\u00eancia da data e dos nomes. Cosme, Dami\u00e3o e um 27 de setembro.<\/p>\n<p>O fato de serem morcegos era o de menos&#8230;<br \/>\nUm amigo meu, o William, j\u00e1 havia me explicado que n\u00e3o precisamos ter medo deles. Devemos sim proteg\u00ea-los, por mais estranho que pare\u00e7a.<\/p>\n<p>De tantas que haviam, n\u00e3o lembro qual a longitude e a latitude daquela \u00e1rvore&#8230;, s\u00f3 sei que era um papo entre eles&#8230; Dois morcegos&#8230;. Normal.<\/p>\n<p>J\u00e1 tinha escurecido, eu estava com frio e me preparava para retornar do passeio pela fazenda&#8230;<\/p>\n<p>&lt; Tive um estalo! &gt;<\/p>\n<p>Espere a\u00ed: dois bichos estavam falando&#8230; Normal?! Algu\u00e9m disse: -Normal?!&#8230;<br \/>\nFechei os olhos e me imaginei coruja: &#8230; fiquei quietinho, prestando a maior aten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Curiosidade mata, minha av\u00f3 diria&#8230; Mas eu pensei: -Sou um homem ou um rato?&#8230;<\/p>\n<p>Antes que o meu inconsciente saltasse em gargalhadas, tomei posi\u00e7\u00e3o firme. Fiquei. Continuei quietinho&#8230;. N\u00e3o muito convicto nem confiante na minha coragem&#8230;, mas fiquei&#8230;<\/p>\n<p>Estava escuro, eu n\u00e3o os via&#8230; e torcia pela tal de rec\u00edproca.<br \/>\nO papo era claro, dava para entender&#8230;.<br \/>\nN\u00e3o eram os morcegos, em sua forma, que me intrigavam, e sim aquela estranha comunica\u00e7\u00e3o&#8230;.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o s\u00e3o cegos, meu amigo Wiliam tamb\u00e9m j\u00e1 tinha me advertido&#8230;. Por\u00e9m, falar?&#8230; Isso sim, me amedrontava&#8230;<\/p>\n<p>Era algo diferente. A voz n\u00e3o sa\u00eda mas a comunica\u00e7\u00e3o, de t\u00e3o percept\u00edvel, parecia aud\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>De alguma forma, eu estava ouvindo. Juro!&#8230;<\/p>\n<p>O medo cedeu lugar a um estado de contempla\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nPara garantir&#8230;, deixei de ser coruja, fiquei invis\u00edvel e mergulhei de corpo e alma naquele mundo&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei tomado pela emo\u00e7\u00e3o com a fala de um deles, que dizia assim:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-101\" src=\"http:\/\/portallulamoura.art.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/lula2.gif\" alt=\"\" width=\"130\" height=\"102\" \/><\/p>\n<p><em>&#8211; Sabe Cosme, o que eu estou lembrando agora?&#8230;<br \/>\n<\/em><em>Daquela vez que a gente resolveu conhecer as \u00e1rvores que nossos pais sobrevoavam&#8230;\u00a0 <\/em><em>Eles tinham raz\u00e3o, &#8230; aquelas frutas eram deliciosas&#8230; Doce puro&#8230;. Saborosas. N\u00e3o sei como nossos primos comem insetos&#8230; Flores, ainda vai, mas insetos? \u201cIrc\u201d!&#8230;<\/em><\/p>\n<p>&lt; Fez-se uma pausa, que trouxe um tom diferente na fala\u00e7\u00e3o &gt;&#8230;<\/p>\n<p><em>&#8230;. Aquele menino n\u00e3o fez por mal, Cosme&#8230; Morre de medo da nossa forma n\u00e3o muito favor\u00e1vel&#8230; dessa imagem que nos impuseram atrav\u00e9s dos tempos&#8230; lendas enganosas onde aparecemos como vil\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8230; Mas esta injusti\u00e7a um dia ter\u00e1 fim, meu irm\u00e3o&#8230;. Tem gente tentando mudar isso&#8230;. Sim, eu vi&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Gra\u00e7as ao trabalho de uns poucos, que aos poucos v\u00e3o se transformando em muitos, nossa imagem est\u00e1 mudando&#8230; <\/em><\/p>\n<p><em>Talvez demore, sabe?&#8230; Talvez somente gera\u00e7\u00f5es futuras entender\u00e3o a nossa import\u00e2ncia e perder\u00e3o o medo&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8230; Ele n\u00e3o fez por mal, meu irm\u00e3o. \u00c9 apenas um menino&#8230;<br \/>\n<\/em><em>que foi mal informado por um pai mal informado, que aprendeu com um av\u00f4 mal informado&#8230;\u00a0 <\/em><em>que pensam que morcego \u00e9 coisa ruim&#8230;\u00a0 que se alimentam do sangue humano, o que a gente sabe que n\u00e3o \u00e9 verdade&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Somente alguns de n\u00f3s se alimentam de sangue (tr\u00eas das quase mil esp\u00e9cies). Mesmo assim, de outros bichos&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>&#8230;. J\u00e1 n\u00e3o tenho certeza se voc\u00ea est\u00e1 me ouvindo agora, Cosme.\u00a0 Mas algu\u00e9m deve estar&#8230;\u00a0\u00a0 <\/em><em>E quando voc\u00ea chegar no outro lado, te dir\u00e1 que eu, Dami\u00e3o, teu irm\u00e3o, me despedi&#8230;\u00a0\u00a0 E que irei sentir sua falta por aqui&#8230;<\/em><\/p>\n<p>&#8230; &lt;ali, parou a fala&gt;&#8230;<br \/>\nDami\u00e3o esperou cair mais uma l\u00e1grima&#8230;. Percebeu que a molecada j\u00e1 havia ido embora e levado consigo a vara que matara Cosme&#8230;<\/p>\n<p>Fechou as asas de seu irm\u00e3ozinho mais novo&#8230;, pediu a presen\u00e7a dos bons esp\u00edritos&#8230;, deu-lhe o \u00faltimo beijo e bateu em retirada ao encontro do seu destino&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-102\" src=\"http:\/\/portallulamoura.art.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/lula3.gif\" alt=\"\" width=\"75\" height=\"99\" \/><\/p>\n<p>Eu fiquei ainda ali, parado por uns instantes&#8230;<br \/>\n&#8230;. Fiquei pensando no ser humano&#8230;, no equil\u00edbrio da natureza&#8230;, nos desencontros&#8230;, na nossa ignor\u00e2ncia acerca das coisas&#8230;, dos falsos medos&#8230;. Na necessidade de uni\u00e3o e cuidados, m\u00fatuos, independente da esp\u00e9cie&#8230;<\/p>\n<p>Quis voar, ao encontro daquele morceguinho que se ia triste&#8230;\u00a0 Mas voar, eu n\u00e3o sabia&#8230;\u00a0\u00a0\u00a0 ainda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p># f i m #<\/p>\n<p>Por Lula Moura<br \/>\n(criado em setembro de 2002 &#8211; publicado nesse site em 27\/09\/2019)<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-46\" src=\"http:\/\/portallulamoura.art.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Lula-002-png-B-300x297.png\" alt=\"\" width=\"182\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/portallulamoura.art.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Lula-002-png-B-300x297.png 300w, https:\/\/portallulamoura.art.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Lula-002-png-B-100x100.png 100w, https:\/\/portallulamoura.art.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Lula-002-png-B.png 659w\" sizes=\"(max-width: 182px) 100vw, 182px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Dois morcegos&#8230; N\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil. 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